Meus chegados

quinta-feira, 12 de março de 2009

Favela Negreira

Esses dias, na rua, vi um rapaz usando uma camiseta com
um texto que me chamou a atenção. Dizia:
Antes senzala, hoje favela,
a luta continua!!
Fiquei pensando nisso e me lembrei
de um projeto em que trabalhei há alguns anos
sobre os Navios negreiros... Esse poema data desse época
mas como "nada do que foi será de novo como já foi um dia",
acho que o sentido continua o mesmo apesar de muita coisa
ter mudado....

Favela Negreira

Vede os céus tão negros, turbulentos
O vento furioso, impetuoso, violento
A chuva persistente, contínua, valente
Os raios aleatórios e frequentes.

Vede e contemple.

A pipa no céu cortada por um traçante
O arrastão cruel, a cola, o traficante
A necessidade, a realidade, a morte
O asfalto, o crime, a fuga lá pro alto

É esse o auto. O último ato.

Não lhes interessa somente homens:
O que tiver aí é mão de obra barata
Banidos da sociedade, sedentos como cães:
Pessoas, crianças, filhos... mães.

Que tristeza.

Clama o menino com a inocência roubada
Chora a mãe pela prole ceifada
Revolta-se o irmão: -Que injustiça! Cilada.
Morre o pai de dor. Mais uma família desgraçada.

Cotidiano da Família Negreira.

Que se esconde do que não pode combater.
Que não combate com medo de perder.
Que perde por ser considerada apenas mão de obra
e quase ninguém percebe a diferença

O Navio anuncia a partida e todos já sabem o seu lugar.
Seus olhos brilham. E, no labor da viagem sem fim,
mesclam-se raças e cores no convés,
ou no porão, não faz diferença: todos são mão de obra barata.
E a importância de cada um resume-se
às necessidades do imponente Navio Negreiro:
Seguir seu curso, sem jamais alterar sua rota:
Sempre em frente, passando sobre tudo e todos.
Afinal, a tripulação já aceita tudo com maior passividade.
Sem resistência, já não há como comprar sem se vender
e tudo acaba s emimetizando com o comum.

Deus, onde chegaram!!

Negros, brancos, pardos, cafuzos ou mamelucos:
Palavras, cores, raças que definem uma hierarquia
E o Navio vai indo: lindo, imponente, corta ondas e vence tempestades
Mas a peleja é dura. E caleja, aleija, dói...

Eles entregaram os chicotes em suas próprias mãos
Ó, escravos!! Ou encaram de frente a discriminação do asfalto
Ou fogem da brutalidade pra marginalidade lá do alto.
Eles ensinaram que lá em cima só existe isso mesmo.

E quem pode discordar? Eu posso!! -Cala a boca!!
É o que gritam para quem quiser falar
Nesse Navio Favela, ninguém tem alma ou sentimento
Ninguém pega no Leme, ninguém tem cor pra esse intento.

Quem é que os governa, então? Quem está na direção?
Não há ninguém pra responder? Quem está nesse Timão?
Esse Navio Favela, essa Favela Negreira, essa Favela Navio
Esse Navio Negreiro está à deriva: ao Deus dará.

Está afundando aos poucos nessa lama de desigualdade
De certa forma não seria melhor vê-lo afundar no mar?
No fim, não seriam só os realmente fortes a sobreviver?
E só sobrariam os que sempre tiveram que aprender na marra.

E quando tudo vira osso no fim de tudo,
não se distingue nenhuma diferença e, enfim,
todos enxergam o horizonte da mesma perspectiva.

--Clayton Guimarães

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