Engraçado como as coisas mudam, as cores mudam, os cheiros mudam e mais curioso ainda: como as pessoas mudam. Olhando janelas recortadas de momentos bons do passado, me encontrei sorrindo, cabeludo, abraçando e sendo abraçado em alguma praia, em algum de nossos muitos acampamentos por aí.
De algumas fotos, eu quase posso tocar as sensações que vivi na época, o motivo do largo sorriso e a sinceridade de cada abraço que dei ou recebi. Mas não sei quando, em algum ponto que deixei passar despercebido, as coisas mudaram. Não sei como, nem sei se mudaram para melhor ou pior, o que sei é que sinto uma ausência daquela essência que perfumava aqueles dias das fotos.
Eu sabia que a responsabilidade bateria à minha porta tão logo os anos se passassem e trouxessem consigo as preocupações e os deveres mais exigentes. Sabia também que de tudo o que vivemos tudo o que sempre resta no coador é a amizade que nutrimos desde sempre. A lealdade e a cumplicidade de tantos momentos, tantas intempéries da vida, os momentos difíceis, as diferenças, as semelhanças, as dúvidas, as dívidas, as mudanças de humor e os crimes que sabemos que cometemos, mas que jamais nos atreveríamos a comentar. Eu sabia que, quando um de nós fosse encontrado pelo “indesejado da razão”, algo iria acontecer, só não sabia qual seria a reação produzida. E, ainda agora, eu não sei. Sei que houve uma mudança de prioridades, e isso eu entendo. Mas algo mais mudou e não foi algo que podemos explicar. O que mudou foram os cheiros, o clima, as palavras... E agora, uma distância começa a se alargar à medida que novas sensações são experimentadas.
Quando se alia a uma pessoa pela proximidade de assuntos sobre os quais partilham a mesma opinião é fácil definir porque são aliados. Mas quando uma das partes percebe que, por algum motivo suas convicções não são mais as mesmas (e ninguém deve ter compromisso com o erro) e a outra continua firme, já não há uma sintonia. Em se tratando dele, o “paradoxo dos sentidos”, nada mais faz sentido quando ele chega, invade a casa e senta com os pés calçados em cima da mesinha de centro. Agora é ele quem manda, quem dita as regras, quem comanda as atitudes. E assim, resta à outra parte resignar-se em sua convicção e seu respeito pela outra parte e buscar uma nova direção para seus passos. É a coisa certa a se fazer, mas sempre fica (não sejamos hipócritas: sempre fica!) a sensação de perda. Não seria egoísmo, nem ciúmes, mas, politicamente falando, a causa perde força. E a única certeza de que temos, a de que a amizade sempre permanece intacta, indestrutível, indelével em corações e mentes, fica condicionada aos desejos do “Senhor das emoções”.
E essa é a minha impressão sobre o que aconteceu. Não culpo o “Divisor de prioridades”, nem os efeitos que ele causa, mas as atitudes com as quais se age acreditando-se piamente que nada mudou e que tudo sempre será como antes e que cada um tem sem espaço. O Amor chegou. Damos a ele as boas vindas e saiamos de fininho. As pessoas permanecem iguais, mas alguma coisa mudou. Não só os cheiros, o clima ou as palavras. Como eu disse: algo que não se pode tocar. As atitudes mudaram.
Clayton Guimarães.
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