Meus chegados

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Esboços do que somos.



Não sabia o que buscava encontrar, sequer sabia o que estava acontecendo, mas tinha uma missão importante. Sentia isso. Precisava compreender.
Certa manhã, pensando num banco da estação de trem, sentiu um torpor percorrer seu corpo. O fim de tarde nublado de outono turvava-lhe o pensamento e revelava algo a mais... Algo que ainda não entendia. Mas sentia algo na brisa, no céu alaranjado e nas nuvens carregadas de um cinza ameaçador. Resolveu ler os sinais. Pessoas e coisas. Sonhos, desejos e sensações. Quantos rostos marcados pela rotina diária, pelo esforço cotidiano, pela repetição mecânica em busca do comer e vestir. Quantos desses rostos escondendo com sorrisos a frustração de não ser nem de longe o que sonharam um dia de suas tardes sonhadoras da infância. Quantos abandonaram há tempos a vontade do que realmente queriam ser, fazer, conquistar e agora mumificam dias repetidos em funções automáticas, desbotando a alma, envelhecendo espíritos e amarelando a vida com um tom sépio, melancólico e nostálgico. Repetindo a vida em um recorte temporal em que um ciclo vicioso gira em torno das necessidades, da conveniência e da sobrevivência. Felicidade e satisfação há muito enterrados nesses corpos e mentes mortos.
Engenheiros aprisionados em balcões, matemáticos desperdiçados em caixas registradoras, médicos tirando pressão por trocados, mestres panfletando filosofia nas calçadas... Nada que lhes roube a dignidade, mas que os impele, em sentido oposto a tudo o que sempre quiseram fazer de verdade, o que sempre sonharam, o que, em determinado ponto da vida, despertou em seus corações o desejo de fazer a diferença, desejo latente como um dom, mas que suprimiram ou ignoraram.
Entre um e outro trem, tentava perceber o que acorrentava tantos sonhos. Qual era o motivo de alguém abrir mão do que lhe faria um ser social pleno, feliz, parte ativa da vida em movimento para exercer um cargo muitas vezes humilhante, outras vezes semelhante, mas em todos os casos genéricos, insuficientes, psicologicamente incompletos e frustrantes? O Sistema? A Mídia? A TV? A Necessidade? A gravidez não planejada, indesejada? O casamento? Os filhos? A ignorância? A preguiça? Buscou encontrar algo no que por a culpa, pois quando se é culpado alguém de fora sempre acaba sendo o responsável.
Resolveu não ir para lugar algum. Saiu da estação para continuar se procurando em uma praça. Um transeunte lhe aborda educadamente com um sorriso. A roupa suja, a barba por fazer e os dedos sujos de grafite não lhe assustam e retribui com atenção. O homem lhe oferece um presente em troca de alguns trocados. Depois de uma tarde inteira procurando respostas em trens apressados e rostos carregados, até que um presente cairia bem. Aceita. O estranho pede que se sente em um dos bancos da praça e demora-se rabiscando algo em uma folha amarelada como a tarde. Passa o dedo algumas vezes, olha satisfeito e sorri. Aceita as moedas que, certamente não pagam a arte, e vai embora. Mas deixa uma lição: não é preciso que ninguém reconheça o trabalho, desde que o que se faça seja realizado com amor, desprendimento e o único compromisso de ter feito sua parte. Imita o rosto desenhado pelo estranho na folha de papel e sorri.

Clayton Guimarães.

Nenhum comentário: