Meus chegados

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Esboços do que somos.



Não sabia o que buscava encontrar, sequer sabia o que estava acontecendo, mas tinha uma missão importante. Sentia isso. Precisava compreender.
Certa manhã, pensando num banco da estação de trem, sentiu um torpor percorrer seu corpo. O fim de tarde nublado de outono turvava-lhe o pensamento e revelava algo a mais... Algo que ainda não entendia. Mas sentia algo na brisa, no céu alaranjado e nas nuvens carregadas de um cinza ameaçador. Resolveu ler os sinais. Pessoas e coisas. Sonhos, desejos e sensações. Quantos rostos marcados pela rotina diária, pelo esforço cotidiano, pela repetição mecânica em busca do comer e vestir. Quantos desses rostos escondendo com sorrisos a frustração de não ser nem de longe o que sonharam um dia de suas tardes sonhadoras da infância. Quantos abandonaram há tempos a vontade do que realmente queriam ser, fazer, conquistar e agora mumificam dias repetidos em funções automáticas, desbotando a alma, envelhecendo espíritos e amarelando a vida com um tom sépio, melancólico e nostálgico. Repetindo a vida em um recorte temporal em que um ciclo vicioso gira em torno das necessidades, da conveniência e da sobrevivência. Felicidade e satisfação há muito enterrados nesses corpos e mentes mortos.
Engenheiros aprisionados em balcões, matemáticos desperdiçados em caixas registradoras, médicos tirando pressão por trocados, mestres panfletando filosofia nas calçadas... Nada que lhes roube a dignidade, mas que os impele, em sentido oposto a tudo o que sempre quiseram fazer de verdade, o que sempre sonharam, o que, em determinado ponto da vida, despertou em seus corações o desejo de fazer a diferença, desejo latente como um dom, mas que suprimiram ou ignoraram.
Entre um e outro trem, tentava perceber o que acorrentava tantos sonhos. Qual era o motivo de alguém abrir mão do que lhe faria um ser social pleno, feliz, parte ativa da vida em movimento para exercer um cargo muitas vezes humilhante, outras vezes semelhante, mas em todos os casos genéricos, insuficientes, psicologicamente incompletos e frustrantes? O Sistema? A Mídia? A TV? A Necessidade? A gravidez não planejada, indesejada? O casamento? Os filhos? A ignorância? A preguiça? Buscou encontrar algo no que por a culpa, pois quando se é culpado alguém de fora sempre acaba sendo o responsável.
Resolveu não ir para lugar algum. Saiu da estação para continuar se procurando em uma praça. Um transeunte lhe aborda educadamente com um sorriso. A roupa suja, a barba por fazer e os dedos sujos de grafite não lhe assustam e retribui com atenção. O homem lhe oferece um presente em troca de alguns trocados. Depois de uma tarde inteira procurando respostas em trens apressados e rostos carregados, até que um presente cairia bem. Aceita. O estranho pede que se sente em um dos bancos da praça e demora-se rabiscando algo em uma folha amarelada como a tarde. Passa o dedo algumas vezes, olha satisfeito e sorri. Aceita as moedas que, certamente não pagam a arte, e vai embora. Mas deixa uma lição: não é preciso que ninguém reconheça o trabalho, desde que o que se faça seja realizado com amor, desprendimento e o único compromisso de ter feito sua parte. Imita o rosto desenhado pelo estranho na folha de papel e sorri.

Clayton Guimarães.

Meu poema



Meu poema hoje é você. Não encontro palavras para descrever o que sinto quando te vejo. Sufoco, gelo, engasgo e tremo. Eu que já tive e recebi prazer de mulheres experientes, coro quando me olha nos olhos. É uma coisa diferente... Não é só desejo, não é só carne, não é só carinho, não é só curiosidade, não é. É tudo isso misturado ao teu olhar de moleca, à tua malícia de ninfeta e ao teu transpirar adolescente.
Seu corpo todo é digno de uma Ode... Uma homenagem à altura de tanta beleza. Me sinto louco, néscio, por não conseguir controlar minhas sensações ao estar com você. Beijar teus lábios suculentos, carnudos como o favo doce de alguma fruta proibida, mortal, fatal, mas que insisto em provar quantas vezes me forem possíveis. Ao percorrer cada curva e medir cada centímetro de seu corpo tenro da idade, jovem, solícito. Ao desvendar e descobrir a pele mais clara... Tesouro escondido... Os pelos loirinhos eriçados com o calor da minha voz.
Ah! Como queria que nos tornássemos invisíveis aos olhos. Só nós dois naquele momento único em que tudo pára e o mundo se cala enquanto nossos lábios se tocam. Naquele instante mágico em que confessamos mutuamente o que queremos, não com palavras, pois já o sabemos, mas com olhares, sorrisos e corpos... Com nossas vontades.
Minha querida. Minha princesinha. Minha Lolita. Minha cúmplice. Mais uma vez nossos corpos se tocam, comprimem, apertam, beijam, permitem. E depois evaporamos. Cada um para o seu mundo. Eternizados nessas linhas o prazer, o desejo, a força que nos atrai. Essa tua boca que me embriaga, que me tira a razão. O cheiro do teu cabelo, que eu puxo, agarro pela nuca quando me beija. O gosto do teu gloss, a textura macia da tua pele. Seus contornos, suas curvas excitantes, sinuosas, insinuantes, perigosas.
Mas também os motivos que nos repelem. Apesar de não poder te ter, te quero, te desejo, te espero, te cobiço, fantasio pra mim. Sinto falta de te ter, mesmo que nunca foras minha e tenho medo de nunca ser. Mas, nesse momento, apego-me e ocupo-me mais com o que tenho do que com o que posso, um dia, não mais ter.

Clayton Guimarães.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Por enquanto, só ela vai entender.



Ainda que te que te esqueça. Ainda que não te queira mais. Ainda que todas as coisas que passamos não voltem. Ainda que não te ame mais. Nem menos. Ainda que, pelo menos, chores. Ainda que seu rosto me suma da lembrança. Ainda que te substitua. Ainda que nunca mais te veja. Nem te sinta. Ainda que minta. Ainda que eu diga que não te espero. Ainda que me cure. Ainda que eu jure. Ainda que tudo fique para trás. Ainda que eu não chore mais. Ainda que eu me levante e siga adiante. Ainda que tenha forças. Ou que desfaleça. Ainda que eu supere. Sempre existirá uma canção com a nossa história. Guardada em qualquer nota rabiscada ou descrita em guardanapo. Sempre haverá uma poesia declamando nossos olhares e sorrisos, nossa paz. Sempre se ouvirá uma voz solfejando em Dó maior a nossa harmonia... A nossa Sintonia... E sempre vai estar escrita, grafada no tempo e no reino das memórias, o nosso romance. Ainda que imperfeito, mesmo que incompleto, mas com todas as nossas aventuras, nossa cumplicidade,nossos risos e lágrimas, tantas rosas perfumadas e seus espinhos cruéis. Com nossas fugas e esconderijos,nossos segredos, nossas rotas, canções e violão na varandinha. Com beijos quentes e lágrimas frias, nossos corpos, coreografias. Nossa casa planejada que nunca nos serviu de lar. Cerimônias a que faltamos. As roupas que nunca vestimos, os móveis que não usamos. Mas com todas as lutas, todas as conquistas. E derrotas. Um final reticente, do qual não participamos juntos. Filme bem escrito. Nada nos poderá roubar isso. A beleza espontânea de termos sido felizes do nosso jeito. E se "o pra sempre sempre acaba", "nada vai conseguir mudar o que ficou". Só se é feliz de verdade nessa vida quem ama, pelo menos, UMA vez. "E aí,então,estamos bem".

Clayton Guimarães.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Fazer Amor – II


Olho pra ela assim: tão livre. Cobicei tantas vezes esse teu corpo nu. A pele que tantas vezes tocadas pelo sol abusado e pelo olhar comum. E agora esse transpirar, esse fogo, essa vontade louca que me empurra do precipício. Olho pra você: malicioso sorriso em rosto corado. Sei bem o que seus olhos dizem: sua gana... Desejo. Colo você em mim e te beijo. Um beijo sôfrego, quente, inflamado... Um longo e desesperado beijo lascivo. Que produz em nós desejo e libera a libido retesada. Não duvidamos: Precisamos!
Loucamente, como uma tempestade de verão, rasgo a distância, a roupa, o que me priva da tua cor. Eu a dispo como o corte do machado... Forte e preciso... Arrancando sua nudez, revelando os mistérios do teu corpo. Os seios rígidos em forma de pêra... Cada centímetro das costas nuas... A curva sinuosa das nádegas... O pelo eriçado da barriga com o toque da minha língua... O gosto quente do seu sexo... O clima... Os fluidos e sensações... Não há mais volta.
Desvendo cada milímetro de você, reinventando formas de te sentir gozar. Penetro, não apenas seu corpo, mas alma e sentimentos, transgrido, agrido, invado. Nossos corpos suados se unem, se mesclam, se fundem, se fodem. Sem palavras. Apenas sons. Grunhidos e gemidos arfantes de prazer. Enquanto cavalgas, não apenas meu pensamento mais lascivos, percorro com o que resta de mim o seu corpo, reagindo a cada impulso, a cada espasmo incontrolável... O rosto em brasa... Os movimentos... A pressão... O choque dos corpos... Os gritos agudos... Os gostos... O Gozo.
Olho pra janela, ainda dentro do seu corpo. Sentindo seu calor em mim. As luzes da manhã que se aproxima confidenciam nossa luxúria, revelam nossas vontades, o que nos esgota. Levanto-lhe o cabelo revelando o pescoço nu. Lambo-lhe o lobo da orelha: Arrepio. Ela se vira. Beijo. Meu corpo redireciona o sangue novamente e me enrijece. Sussurramos que nos queremos em pensamento, tão alto que quase ouvimos. Sentimos. Começamos tudo outra vez.


Clayton Guimarães

Pra você.


Escrevo um sol amarelo e um céu azul pra essa manhã nublada. Escrevo pássaros cantantes e árvores frondosas. Escrevo crianças correndo e sorrindo. Escrevo piquenique e amarelinha. Rabisco a nuvem cinza e os respingos de lama. Apago os relâmpagos e calo os trovões. Enxugo a grama verdinha e evaporo poças d’água. Pra você passar, Caminhar sua beleza pelo meu dia artesanal, pintado a dedo com tinta guache. Colorido com sorrisos, flores e sensações policromáticas. Pra você ler nas entrelinhas e sorrir. E descobrir, surpresa, parte de ti nessa euforia. Nesse dedilhado romântico, nesse batuque dançante, encontrar suas frequências. Deixar passear pelo teu corpo e medir a palmo teus contornos. Pra você voar livre como gaivota em paisagem sobre meus pensamentos. Sentir o vento arteiro emaranhar-lhe os cabelos e pousar graciosa em meus braços.

Clayton Guimarães.





Manhã


Que doce visão logo ao acordar:
Teu rosto liso de marcas, cândido
E puro de qualquer expressão:
Só você, pura e verdadeira.

E o teu corpo lindo, perfeito
Abandonado, semi coberto
Sob meu olhar, com um pano meu
A esconder-te pela metade.

Nem inocente nem Lasciva:
Híbrida tentação que instiga
E se flexiona em seus contornos.

Clayton Guimarães

Fazer Amor – I


Olho pra ela, assim: tão minha. Sonhei tantas vezes com a cor do seu corpo nu. Com as partes que nem sol nem olhar algum jamais tocara. E agora, esse tremor. Esse calafrio e a sensação de estar à beira de um abismo. Afrouxo meu abraço e fito seu rosto enrubescido. Não distingo muito bem o que seus olhos dizem, mas há uma expectativa... Um encorajamento. Eu a afasto um pouco mais e lhe beijo. Um beijo doce de amor, suave, inebriante. Um longo e vicioso beijo apaixonado que dá permissão... Que prenuncia o inevitável... Não hesitamos. Queremos.
Levemente, como o dançar de uma brisa outonal, vou despindo seu corpo como às pétalas de um bem me quer. Descobrindo seus contornos, a pureza da tua pele e cada canto oculto da sua timidez. A pele do colo que vai clareando quanto mais próximas aos seios medianos... Perfeitos... O contrair do ventre com o meu respirar... O ventre quase intocável... Úmido... Exalando o que realmente está sentindo... O cheiro agridoce do seu sexo... Não há mais volta.
Exploro cada suave parte do seu corpo descobrindo prazeres que, sinto foram guardados para esse momento. Estou dentro. Uno-me a ela por esse momento mágico em que corpos se tocam e almas se fundem. Não há palavras, apenas suspiros e a ofegante certeza de que um completa o outro. Enquanto atuamos uma dança ondulante de amor, beijo seu corpo, tateio, como que para gravar mnemonicamente cada som... Cada cheiro... Cada tom... Cada sensação... Seu rosto tímido... Os seios em minhas mãos... A força ritmada... A intensidade... O prazer. A voz fraqueja. O corpo vibra. Os olhos se perdem em outra dimensão. Ápice.
Olho pra janela, ainda junto dela. Sinto o calor do seu corpo no meu. A escuridão da madrugada é testemunha do nosso segredo, dos gemidos sufocados, do que fizemos. Acaricio seus cabelos e os arranjo atrás da orelha. Beijo suavemente sua testa... Os olhos... E me demoro em seus lábios rosados. Sussurramos em uníssono e dormimos abraçados.

Clayton Guimarães

Força.


Não sei se sou forte ou se sou fraco. Quando permito que me inibas, que me domines o pensamento. Quando a simples menção do seu nome me arranca um sorriso ou um suspiro. Fazendo-me lembrar teu riso solto, o canto da sua voz espontânea e o dançar louco dos seus cabelos. Ainda não sei se é fraqueza pensar em ti assim o tempo todo, mas demonstro força ao tentar não te ver em tudo... Nas tranças da menina, no vento contra o rosto, no cheiro de chocolate... Ah! Como eu tento! Ignorar-te na paz de uma canção, no vestido levado que levanta, no estalar de um beijo... Então sou forte!
Não sei se falo ou se finjo. Se me entrego de uma vez... Ou se minto. Escondo. Atrás de conversas triviais, me mantenho aparente. Quando me perguntas como estou ou como foi meu dia ou inicia assunto qualquer... Digito “Eu te quero loucamente... e para sempre”, mas o que envio não passa de um “oi, Tudo bem.” E quando te vejo, me escapolem as palavras, as falas. De mim se esconde a coragem e se embolam os pensamentos. Mas, com todo esse martírio, gosto da sua presença, do simples fato de pensares em mim. Me fortalece sua atenção apesar de me enfraquecer as defesas. Você vence no olhar. Ganha sem lutar. Tem esse dom de desbaratar meu exército de certezas. E, se isso é cuidar que se ganha em se perder, perco mil Guerras pra ti... Por ti... Estou preso por escolha e sirvo a quem vence o que venceu.
Então, o que sou? Fraco... Forte...? Seja o que for, nunca fez diferença. Perderia quantas vitórias fossem necessárias e venceria todas as minhas derrotas se isso significasse contemplar todos os dias o triunfo de seu lindo sorriso. Esse, tímido, encabulado que me emprestas agora.

Clayton Guimarães.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Voz da Ativa.


Eu só quero poesia. Flores e borboletinhas. Uma vida de TV: perfeitinha e colorida. Um sonho de cinema com final Feliz. Nada de coisas feias! Nada de ratos, baratas ou percevejos! A não ser que sejam em animação e em 3D. Quero florestas e mocinhas salvas por galãs em cavalos imponentes. Não quero ver sujeira nem bagunça. Vamos limpar tudo! Mas sem campos de concentração, apenas inseticidas morais. Uns tiros e cassetetes, armas de choque... Não! Cadeira elétrica não! Isso choca demais.
A Copa vem chegando. Quero festa! Alegria, sorrisos e canções. Nada de enchentes nem escombros, nem lixo ou moscas varejeiras, principalmente nas sopas do Governo. Vamos! Vamos! Limpem as ataduras e escondam as feridas purulentas! Sem doentes ou mortos no meu plantão, pois, se eu faltar, não quero sangue nas mãos. Vamos para a praia! Quero todos corados! Curados de todas as bactérias e vírus. De todos os males da alma. Nada de depressão, de homofobia ou de discriminação. Aqui não! Aqui está tudo limpo! Dos mofos do Governo, da coleta irregular, das ruas em meia-pista. Não falem em drogas nem em crackolândia. Nem em mortes na Brasil. Nem dos fungos na Polícia, que corrompem todo o resto. Acendam incenso e purifiquem o ar. Acabem com esse cheiro de carne podre, não importa de quem seja o corpo. Simulem afogamento. Joguem no rio. Troquem o cadáver se preciso. E quem é essa mãe vomitando indignação? Falando de injustiça. Escondam-na! Dêem-na pensão! Ou matem-na, o que for mais rápido. Só não quero escândalo. A Copa está chegando. Quero o Maracanã. A Imagem. Quero futebol, samba, Engenhão no fim de semana. Sapucaí. BBB. Praia, bunda, Carnaval. Hoje eu só quero poesia. Flores e borboletinhas.

Clayton Guimarães

Ciclo


Amanheço aurora. Em feixes de esperança e misto de cores.
Boreal. Iluminam oportunidades e serenam expectativas
Em floridas árvores de sonhos. Que nunca desvanecem.
E, quando sol a pino, a manhã se vai.
Entardeço. E me nublam forçadas ilusões.
Cobram-me atenções divididas, carentes, famintas.
E devoram, vorazes, até o resto, o que tinha sido belo.
Choro calado, num canto, gemendo, suado,
Soluçando, sentindo, quase ganindo, como um cão.
Acuado, com medo. Dessa sociedade. De tudo que oprime.
Do preconceito, da injustiça, da fome e discriminação. Da morte.
Anoiteço. Da escuridão enevoada, um sorriso na lama da enchente.
Nos escombros das casas destruídas, uma flor.
Brotando, desabrochando, sobrevivendo... Ensinando.
Uma força que sei donde vem. Mas vem.
Pulsante. Latente. Movimentando novamente
O dom de crer. De replanejar.
Ansioso, madrugo.

Clayton Guimarães.

Pleonasmo repetido e redundante



Quando me distraio e consigo me concentrar em qualquer outra coisa, e já penso que dobrou a esquina, lá vem ela. Voltando. De novo. Num pleonasmo absurdo no qual redundam platonicamente meus desejos. E lá vem ela. Trazendo a mania de ser irresistivelmente espontânea, livre, arredia. Carregando a beleza de uma flor que não deve ser colhida. Uma rosa selvagem cuja beleza estará para sempre em minha memória, ainda que jamais a possua.
O que é meu e o que nunca terei por posse: o charmoso caminhar, os risos soltos. Os olhares vadios, perdidos n’alguma paisagem. A dança das mãos quando fala, as tardes e as noites à toa. E, por que não, a conversa fiada, revelando segredos, escondendo trapaças, compartilhando remorsos. A mesa e os copos. Embaralhando palavras que falam de amor e descrevem corpos. A mistura de bebidas quentes com frias alegrias. Colhendo ressacas de olheiras no espelho de teto refletindo camas redondas.
É assim que te tenho e te quero e jamais te terei por completo. A não ser na lembrança. E no desejo. Fecho os olhos um pouco mais e, nesse devaneio onírico, deixo os raios de sol banhar-te o corpo nu. Pintá-lo com a cor da manhã alaranjada. Eternizo-te em minha mente. Fantástica. Surreal. Como parte natural dos meus dias.

Clayton Guimarães

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Big Brother Brasil


Bem, Amigos da rede Globoo!!! Começou mais um BBB: O período de maior alienação nacional. Fase pós festas, em que o povo começa a perceber as consequências do consumismo desenfreado das festas de fim de ano. Período perigoso entre o fim do ano e o Carnaval, no qual alguns cérebros começam a processar dados e a despertar um mínimo espasmo de consciência. Então, a saída dos Grandes Manipuladores das massas é encher o brasileiro de expectativas pelo fútil. Convencem a população de que suas vidas são tão mediocremente insignificantes e desprovidas de qualquer atrativo que precisam assistir à dos outros. Colocam pessoas em jaulas para que outras as observem e fazem o telespectador néscio acreditar que faz parte desse teatro: tomando partido, identificando-se, sentindo-se representados, torcendo, decidindo seu futuro, odiando, amando, xingando... votando!
E esse voto, a R$ 0,31 + impostos, multiplicados por milhões de Brasileiros, por semana retornam aos cêntuplos os investimentos das grandes Operadoras e da Grande fábrica do Entretenimento, a rede Globo. Escravizam hábitos e canalizam a atenção de crianças, jovens e adultos simplesmente expondo as "esquisitices" humanas evidenciando a busca do povo por distração. E o quanto são patéticos. Exploram o visual, o sensual, o psicológico e o financeiro sob o pretexto de amenizar as intempéries do cotidiano, a irritação do trabalho, o estresse da condução, os problemas de casa com o eterno "Pão e Circo" nosso de cada dia. Barraco, bíceps e bunda!!
Enquanto isso a vida pára. A minha vida pára. Me oferecem uma nova, mais alegre e interessante, com pessoas bonitas, com personalidades, chego a me enxergar em algumas. E não sou só eu: Nas ruas, nas praças, nas conduções, no trabalho, em casa... todos têm uma nova vida durante três meses. E já não importam o médico negligente, os crackudos na Brasil, a bala perdida, a violência, o lixo na Baixada, as enchentes em Xerém, as famílias desabrigadas, a escola, o Bimestre, o SisU, o ProUni, o futuro...
Os Domingos são sagrados: Dia de votação, às segundas: Tensão Pré-Paredão, Terça: a despedida, Quarta tem festa pra descontrair, Quinta é dia de escolher o Líder, Sexta, temos o Anjo, Sábado, prova da Comida, Domingo: votação... e Nos Pay per views, a realidade alternativa se completa. As pessoas se anulam para viver intensamente uma vida alheia. Nesse ínterim, amigos (e, depois desse texto, desafetos)o Brasil está fechado e não é para balanço de nada não. Fecham-se as portas da mente, da iniciativa, da leitura, de coisas mais produtivas, da razão e da consciência social coletiva. Adira a tudo isso o Carnaval e temos um Brasil disperso, distraído, entretido. E o pior de tudo, são os escravos que acham que foram eles que escolheram seus feitores.
Globo: A gente se liga em você!!!

Clayton Guimarães

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Verão


Adoro essa estação perfeita.
O Sol queimando mais forte. Corando a pele.
Apessegada, doirada de um moreno latino.
E as coxas das moças: Ah! Que mimo!!

Como prezo esse período mágico:
a sainha floral o vestido estampado.
Levinho, soltinho, endiabrado.
Incitador de desejos, alimentador de pecados.

Deleito-me ainda mais com as transparências.
O cabelo preso displicente, o pescoço nu.
A marquinha do biquini, a saída de algodão.
Chuva e sol, arco-íris, tempestade de verão.

Misturada a tudo isso, você ,morena,
com seu jeito malandro-carioca.
Exalando o cheiro agridoce de sol e mar.
Salpicada com suaves tons de Janeiro
e um toque sutil de sensualidade.

Clayton Guimarães

Clímax


Nua. Você em mim. Quente.
Coração descompassado. Alterado.
Respiro. O som do teu cabelo. Sorvo.
Embriago-me com tua saliva. Babo. Suo.
Penetro seu mundo e explodo. Gemidos.
Encravada em minha carne, você grita.
Meu nome. Me excita. Somos um agora.
Mil mundos se colidem dentro de nós.
Um fogo incinera tempo e espaço. Gozo.
Teu olhar de animal no cio. Meu desejo.
Sua arma. Percorro a extensão do teu corpo.
Fatal. Real. Mulher.
Em meus ouvidos sibilam sons.
Gritam libido e uma estranha sinestesia.
Sussurram você.

Clayton Guimarães

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Garoa



Preparei um ramalhete de palavras sinceras. Com o coração cheio de expectativas. Mandei que lhe beijasse a face uma brisa outonal de fim de Março. Perfumei-a com meus carinhos, doces carícias e sensações. Quero que te encontre fresca de um banho, os cabelos enrolados em turbante, seminua em calcinha de algodão. Quero que se assuste com a lufada de desejo que entrar pela janela de madeira antiga. Quero que sorria ao reconhecer-me em cada vírgula, em cada metáfora ou anáfora, em cada hiperbólica descrição de ti. Quero bochechas coradas e coração acelerado. Quero mão na nuca e beijo no pescoço. O eriçar dos teus pêlos. Quero olho no olho. Não quero violência, mas quero força. E quando me leres nesse buquê especial, te lembres das coisas que ainda não vivemos e te inspire os beijos que ficaram pela metade na vontade dos seus abraços.
Quero que mandes de volta um sorriso teu, em asas de passarinho. Então (e só então!) saberei que não foram em vão minhas canções solfejadas em Si, improvisadas para te encantar. Saberei que as notas que usei foram inspiradas pela ânsia da sua presença. E, assim, espero na janela, sentindo vindo de longe o cheiro único de terra molhada. Esperava pôr do sol. Me respondeste com garoa.

Clayton Guimarães

domingo, 16 de dezembro de 2012

Leitura


Quero intensidade. Uma vida Pulsante e adrenalina. Quero sentir cada instante em câmera lenta. Fazer de cada volta do relógio um oportunidade de mudar tudo. Preencher cada espaço entre o tique e o taque de forma que seja inesquecível. Quero você. Tão minha quanto puder ser. Afável, amável, amante, cúmplice... Com seu sorriso tímido ou com suas unhas cravadas em minha carne. Com sussurros de amor ou gemidos de prazer. Com beijos cálidos ou com toda a força do desejo que nos corta, nos entorta, nos arrebata, nos enverga... tamanha força e volúpia.
Colocar a cabeça pra fora da vida conversível e se sentir livre. Cantarolar uma canção sobre algum pôr de sol e terminar mais um texto que diz mais sobre mim do que eu gostaria. Que me lê e me descreve. Que me imita e, de tão perfeito, me irrita. Me identifica, mas não me limita. Pois quando eu terminar mais essa carta de mim, terei mudado e quererei ser ainda mais único do que quis quando comecei. Quero ser constante.

Clayton Guimarães.

Solta

Vá, sorriso meu,
Beijar a flor do rosto teu.
Corar maçãs, enrubescer
E florear um dia assim
Com seu cheiro ou de Jasmim.

E como a brisa, beijo meu,
Vá levemente lhe encontrar.
Tocar acordes de amor
Com harmonia dissonante
Fazer teu peito ofegar.

E no bater de asas, livre, das palavras
Descrever teu rosto lindo de mulher
Natural, faceira, espécime selvagem
Que exala vida e transborda sensualidade.

Vai e volta nesses tons e prove seu sabor.
Me traga, divinos e doces favos de mel
A beleza do teu corpo, esguio sob um fino véu
Escondendo, translúcido, todo o poder que tens.

Clayton Guimarães.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Corpo e Alma


Nus. Corpo e alma. E nas curvas sinuosas do corpo que se toca, poder sentir nuances da alma que se desvenda. Mistérios perdidos do desenho do colo e segredos escondidos no caminho entre o umbigo e o monte de Vênus. Indecifráveis. Sentir sem querer. Querer sem controle. Os corpos produzem substâncias estranhas que provocam sensações geradas na alma. O seio perfeito, em forma de pêra, solto, livre, desafiador... Que ao toque de luz, irradia a micropenugem doirada que fascina... endoidece e aguça o paladar. E dança. Movimentos lentos, naturais... mas carregados com sua sensualidade... ao som de nenhuma canção. Segue os passos livres de seu próprio destino e reverencia a liberdade. Causa frenesi, desejo... Provoca. No seu ritmo. Joga os cabelos como que pra seduzir a vida e espantar os maus olhares. Sabe o que faz. Quer que estranhem. Quer que sintam libido, inveja, orgulho... Quer que vejam e que reproduzam... Quer que se libertem... Como um espírito da Floresta, mistura-se à vida, ao ar, aos cheiros, às cores e aos sons... Se torna a terra molhada e faz germinar a esperança. Torna-se vento e tempestade...e brisa para espalhar o amor... Disfarçada de mulher, dança, encanta, atua uma cena de improviso. Briga, bate e grita. Seduz. Com seu corpo e sua alma livres. Nus.
Clayton Guimarães.

Hoje no café da manhã, fui obrigado a engolir junto com meu pão de cada dia a notícia de que começa Oficialmente a temporada de Carnaval 2013. Engasguei. No goto, atravessada a ideia de que não pode haver espaço para o povo pensar. Pão e Circo contínuo. Entretenimento programado, mídia das multidões. Dia disso, dia daquilo. Black Friday. Natal. Revèillon. Ceia. Consumismo desenfreado. Descarte. Obsolescência programada. Ignorância. Caos. Carnaval. Samba. Bunda e feriado.
Enquanto tentava fazer descer goela abaixo a realidade do meu povo, percebi, eufórico, um folião precoce na mesa ao lado. Recordei-me de um post no Facebook que abria a contagem: 14 semanas para o Carnaval. Mas, espera! Não é nem Natal!! É contagioso. Ninguém replaneja a vida, calcula expectativas ou faz um balanço do ano que se foi. Como um comboio empurrado, conduzido pela mídia de massa, as pessoas aceitam, compram, pedem emprestado, e vestem a proposta de continuar no mesmo nível, na mesma condição de Consumidores cegos... engordando bolsos e contas de quem diz o que está na moda, o que é tendência e o que vende mais.
Triste perceber a facilidade que o povo tem de se manter distraído, de se vender e de aceitar a velha troca de presentes, na qual uma das partes sempre sai beneficiada e a outra enganada. E dispersa. Entretida. Na frente da TV. Emendam o fim de uma novela com outra, o fim do Brasileiro com os Estaduais, o fim de Malhação com uma nova e o povo não tem tempo para refletir, pensar, ponderar, tecer ideias, pois a hora do Noticiário é o intervalo: a hora de respirar, de ir ao banheiro, comer algo e voltar a tempo pra “das sete”, “das oito” ou “das nove, tanto faz. Considerar, compreender, concluir... Pra quê?? Apenas Pão e Circo. Para você acreditar que vai salvar alguém do programa. Pra te dar a sensação de que fez a sua parte e que está participando de algo. Sim está! Com R$0,31 + impostos. Milhões de brasileiros. Todos por um Ídolo, um Astro mirim, uma voz... não!! Todos contribuindo para a alienação e participando ativamente para a manutenção de poder das grandes redes de Mídia.
Terminei meu café com leite, desliguei a TV e fui trabalhar. Passei a manhã inteira remoendo tudo isso e resolvi compartilhar. Não espero nada com isso, mas precisava dizer. E, se eu falhar em ter tentado mudar pelo menos alguns hábitos MEUS, que contribuam de certa forma para quebrar esse processo esquematizado de manipulação, já terei alcançado um grande objetivo.

Clayton Guimarães.

Crescer

Às vezes, precisamos fazer um balanço de nossas vidas, chacoalhar a frondosa árvore. Calcular conquistas, considerar perdas e replanejar. Ouvi algo esses dias que me fez pensar nisso. Ouvi dizer que descarto pessoas. Mas, na verdade, quando mudamos coisas de lugar, abrimos novos espaços e acabamos por nos livrar do que não usamos ou do que temos apenas por conveniência. E eu mudo bastante. E não aceito algumas coisas nessa nova perspectiva. E, como cansei de ser contundente demais, ignoro algumas coisas e algumas pessoas.
Sempre falamos em “o que ser quando crescer”, mas quando crescemos, muitas vezes nos perdemos e não sabemos mais quem somos ou o que nos tornamos. Mas a busca não pode parar. Nunca. Imagine-se há dez anos. Leia atitudes, erros, acertos... Se a maioria deles se repete, algo pode estar errado. Não confunda Displicência e irresponsabilidade com Personalidade. E a vida cobra duro. Se você continuar vivendo como um rockeiro adolescente dos anos 90 nas rodas da vida, irá acabar em situações em que olhará ao redor e só verá copos vazios, garotas sem reflexo e uma enorme Larica. Porque todo homem precisa construir coisas... Uma casa, uma máquina, um lar... Todo homem precisa conquistar coisas... Uma mulher, um emprego, uma carreira, um coração...
Mas enquanto se depende de outras pessoas para organizar, administrar e instituir valores, sempre estará à margem do que quer dizer a palavra HOMEM em seu sentido pleno. Os anos errando e acertando me ensinaram que enquanto eu quiser agir como adolescente, jamais galgarei posto de homem. Nesse ínterim, já não sou eu quem descarto pessoas, elas é que já não se enquadram mais na minha realidade, e como já não têm tanto espaço, acabam tornando-se obsoletas e descartáveis para dar lugar a pessoas e coisas mais úteis.

Clayton Guimarães.